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A despedida de Alex no Couto Pereira

Capa do jornal Gazeta do Povo no dia após o jogo de despedida

Capa do jornal Gazeta do Povo no dia após o jogo de despedida

De agora em diante, falar em História do Coritiba vai ficar impossível sem falar em Alex. Que deixou os gramados no último domingo, dia 7 de dezembro de 2014, saindo do futebol profissional direto para a categoria do mito improvável, da lenda, das histórias fabulosas.

Eu sou novo demais para falar em maiores jogadores da História do Coritiba, minha memória pessoal remonta aos tempos das caretas de Lela e das defesas incríveis de Rafael. Lembro de ter visto o goleiro Jairo, outro na categoria das lendas vivas. E tenho lembrança etérea de Dirceu Krüger, embora acho que não de vê-lo jogando. Mesmo assim, não tenho medo de afirmar categoricamente que Alex é o maior jogador que foi formado no Coritiba em todos os tempos.

Eu sei, é temerário fazer comparações. Jogava-se futebol muito diferente em outros tempos, o Coritiba teve suas glórias e seus heróis. Mas percebam que eu não estou afirmando que Alex tenha sido o maior jogador da História do Coritiba. Acho que não foi, e ele mesmo ressalta isso sempre em suas entrevistas. Ele jogou 2 anos no Coritiba entre 1995 e 1997, e depois jogou mais 2 anos em 2013 e 2014. Nesses quatro anos atuando no clube – seus primeiros e seus últimos como profissional, conquistou um único título: o Campeonato Paranaense de 2013, o primeiro tetracampeonato do clube desde o lendário time que conquistou 8 dos 10 títulos da década de 1970 (incluindo o hexacampeonato 1971-76).

É que os times nos quais Alex jogou com a camisa alvi-verde não mereceram destaque na História do Clube pelo que fizeram. Este lugar está reservado para times como os da década de 1970, o de 1980 (que foi semifinalista do Campeonato Brasileiro sendo derrotado pelo Flamengo de Zico e tendo até hoje a maior média de público em campeonatos nacionais em seu estádio), o de 1985 (campeão brasileiro), o de 1989, o de 2003, o de 2008 (que teve Keirrison como artilheiro do Brasileirão), o de 2011 (recordista de vitórias consecutivas e vice-campeão da Copa do Brasil).

Não é disso que estou falando. Estou afirmando que Alex é o maior jogador que o Coritiba já formou, o maior craque Coxa. Porque quando brilhou pelo Palmeiras, pelo Cruzeiro, ou pelo Fenerbaçhe, ele nunca deixou de ser Coxa. Quis voltar para terminar a carreira no clube pelo qual veio ao mundo do futebol, e do qual continua torcedor agora que não joga mais como profissional.

Isso ficou evidente no jogo de despedida de Alex, quando 31 mil torcedores (praticamente sem torcida visitante) fizeram um raro momento de magia na história recente do clube, e atestaram que estávamos diante de um gigante, que deixa o futebol muito menor com sua saída.

Muito ainda terá que ser escrito para tratar do que Alex representa para o futebol e para o Coritiba. Talvez um pouco disso seja feito ainda neste blog. Este post é só uma tentativa de captar o momento que marcou o fim mítico da última passagem do grande craque pelos gramados do Couto Pereira.

Que foi um marco para o futebol o adeus a Alex, não preciso ser eu a dizer. Está no sítio da FIFA, com uma galeria de fotos e uma notícia, que inclusive ficou na capa do portal. A importância de Alex para o futebol brasileiro (que talvez viva seu pior momento em toda a história) também não sou eu que digo. É, por exemplo, o Juca Kfouri, que inclusive lamenta a ausência brutal no craque nas várias seleções nas quais ele podia ter feito a diferença. Destacando as palavras do maior jornalista do nosso futebol, ao comentar sua não convocação para a última Copa:

Mesmo porque a seleção não precisou de alguém que sumisse com a bola durante uns 10 minutos depois do segundo gol alemão…

A importância de Alex vai além do próprio futebol, e alcança a cultura brasileira, quando um craque como Fagner grava junto com Zeca Baleiro uma homenagem tão bonita como essa (que o Sportv misturou com imagens de grandes jogadas do craque, num programa que foi ao ar com reportagens após o jogo):

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Sobre a importância histórica e a magia de Alex para o torcedor Coxa, quem escreve melhor é o Rodrigo Salvador:

Alex, o Aroldo Fedato do século 21

Pra resumir, é isso: Alex formou-se no Coritiba, saiu do clube para jogar em outros grandes clubes do Brasil, foi ídolo pelos 8 anos que jogou na Turquia, foi injustiçado nas convocações da Seleção, e voltou para o clube que o formou para terminar a carreira. Não como uma pálida sombra do craque que foi em seus melhores tempos. Ainda jogando em alto nível, a ponto de ter sido o melhor jogador atuando no país nas duas temporadas (2013 e 2014).

Que ele tenha escolhido o Coritiba mesmo o clube estando numa situação péssima, e sem a menor chance de títulos. Que ele tenha ficado no clube mesmo que por meses o salário não fosse pago. Que ele desse o melhor mesmo quando os corneteiros que vão ao Couto Pereira colocassem em dúvida sua honra. Que ele continuasse jogando seu melhor futebol mesmo quando o presidente do clube dava entrevista chamando seus jogadores de “vagabundos”. Tudo isso são marcas do caráter desse homem, da grandeza que o fez maior entre os grandes jogadores brasileiros da última década.

Por fim, um pouco das impressões da grande festa que foi o jogo contra o Bahia pela última rodada do Brasileirão 2014. Antes que eu escreva qualquer coisa preciso dizer que o Rodrigo Salvador também já fez O Texto sobre este jogo:

Não aprendi a dizer adeus

Sobrou pouco para eu comentar.

A história do jogo começou muito antes. Quando Alex deixou claro e avisado que 2014 era sua última temporada. Que jogaria até o final e se aposentaria. Que o jogo final seria mágico ficou determinado pelos deuses do futebol no dia em que o Coritiba ganhou do Palmeiras e garantiu uma tranquilidade que não teve nenhum momento do ano: de ficar fora da zona de rebaixamento. Ficou ainda mais sedimentado no dia em que o Coritiba ganhou do Atlético em Minas, e deu de presente para a nação Coxa um jogo de despedida do craque sem o fantasma do rebaixamento.

Aí foi começar a preparação para o grande dia. O clube fez campanha convocando os torcedores. E eu que não tinha ido nenhuma vez ao Couto em 2014 já comecei a me coçar. Peguei minha carteirinha de Sócio Torcedor, e descobri que o futebolcard.com não é de nada. Tive que ir para a fila da bilheteria, que abria só na sexta às 10:00 horas da manhã. Fui logo depois do almoço, e esquina da Mauá com a Amâncio Moro já estava em agito:

Fila na bilheteria do Couto Pereira desde sexta

Fila na bilheteria do Couto Pereira desde sexta

No dia do jogo cheguei bem antes, com medo de não achar lugar. E descobri que já estava chegando tarde, praticamente não tinha lugar na arquibancada. Peguei um cantinho com visão privilegiada da bandeira de escanteio. Eu não sabia, mas a torcida já estava esperando antes do ônibus chegar com os jogadores. A Mauá estava assim:

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Este aí foi um vídeo feito por um torcedor. A seguir as fotos que fiz da torcida:

Festa da torcida: arquibancada e setor Pró-Tork

Festa da torcida: arquibancada e setor Pró-Tork

Festa da torcida: setor Pró-Tork e cadeiras Mauá

Festa da torcida: setor Pró-Tork e cadeiras Mauá

Festa da torcida: bandeirão na arquibancada

Festa da torcida: bandeirão na arquibancada

Festa da torcida: as crianças saúdam o craque

Festa da torcida: as crianças saúdam o craque

Começou o jogo, e o Bahia precisava ganhar (além de torcer contra Palmeiras e Vitória) para ficar na série A em 2015. E o time da boa terra aproveitou as mancadas da defesa do Coritiba. Wiliam Barbio jogou como quis, nas costas da defesa. Puxou contra-ataques em velocidade e capitaneou as duas jogadas que resultaram em 2×0 para o Bahia logo no início do jogo.

Já o Coritiba jogava bola, mas não conseguia chegar ao gol. A gente ali esperando Alex fazer os últimos milagres, como muitos que a gente viu, principalmente em 2013. Mas era só a despedida, não era mais dia de grandes feitos do camisa 10. Ele jogou com a classe conhecida, deu passes magistrais, mas gol mesmo não saiu de seus pés.

Era dia dele receber os presentes – da torcida e dos colegas. Além da festa toda, os jogadores todos vieram com o nome Alex na camisa, além de uma frase de agradecimento ao craque. E foram realmente os colegas que fizeram o grande jogo, dando o presente merecido ao craque.

Ainda no primeiro tempo, um cruzamento da direita e o gol de cabeça de Zé Love. Que pouco fez durante o ano, mas se tornou um jogador muito melhor sob o comando de Marquinhos, e merecia fazer este gol pelo tanto que buscou. Em muitas vezes ele foi o símbolo de um Coritiba que jogava bom futebol, mas não colocava a bola nas redes. Ter feito o primeiro gol era um presente dos deuses.

Depois, já no segundo tempo, foi a vez de Dudu, um dos poucos piás da base que se firmou no profissional. Coroou o que foi uma temporada impecável, consolidando-se como jogador para seguir no time principal. Quem sabe, inspirado no convívio com Alex, não se torna mais um grande jogador com essa camisa?

Aos 40 minutos, parada no jogo para a saída de Alex pela última vez. Entra Keirrison.

E ele, o K9, o maior jogador formado na base Coxa desde Alex, tentando ainda voltar a ser o atacante titular e artilheiro, fez o gol mágico da virada, o presente para o craque do dia. Não podia terminar de outra forma a festa do Coritiba, a festa da torcida, a festa de Alex.

Para fechar, assistam a ótima reportagem da RPC, com imagens do jogo:

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