Com 5 vitórias em 7 jogos Marquinhos Santos tem melhor aproveitamento em Atletibas

Com a vitória no Atletiba do último domingo (22/02/2015), o técnico Marquinhos Santos do Coritiba atingiu a marca de 5 vitórias, um empate e uma derrota no maior clássico paranaense. Com isso, atinge os 76% de aproveitamento e se torna o técnico alviverde com melhor marca em clássicos.

Essa notícia foi amplamente divulgada na mídia por estes dias, indico abaixo os links no portal do Coritiba e no jornal Gazeta do Povo:

Bom de Atletiba
Vitória põe Marquinhos Santos no topo de aproveitamento do Coxa em Atletibas

A marca pode ficar um pouco desmerecida, pelo fato de uma parte destes jogos ter ocorrido em campeonatos estaduais que o Atlético joga com time sub-23 (o que vem fazendo desde 2013).

Se o rival opta por entrar com um time que não é o seu melhor, assume os riscos e marca sua história com derrotas e vice-campeonatos, quem sou eu para questionar esta estratégia?

De qualquer forma, o que deve ser ressaltado nesta notícia é o profissionalismo com que Marquinhos Santos trata cada jogo. Iria enfrentar um adversário mais fraco e poderia ficar tranquilo com o favoritismo? Caberia ao técnico sub-23 do Atlético tentar surpreender o time principal do Coritiba com algum nó tático?

Pois o que se viu foi o inverso. Marquinhos estudou o jogo do rival e armou o time de modo a neutralizar o adversário. A vitória não veio ao natural. Foi fruto do trabalho sério do nosso técnico.

Quem explica isso muito bem é o Caio Gondo nesta ótima análise para o blog A prancheta tática.

Mas também o próprio Marquinhos explicou isso em detalhes na entrevista após o clássico. A explicação está logo nos minutos iniciais do vídeo abaixo.

Marquinhos consolida sua trajetória no clube porque encara cada desafio com a devida responsabilidade. É realmente um dos melhores técnicos que já sentou no nosso banco.

O fim da era Vilson

O atual presidente, votando na eleição em que foi derrotado

O atual presidente, votando na eleição em que foi derrotado

Talvez não seja correto falar em uma “era Vilson”. Porque não foi tanto tempo assim que ele esteve no comando do clube. Ou porque seria melhor dividir o trabalho de Vilson em dois momentos distintos, antes e depois da demissão de Marcelo Oliveira, no segundo semestre de 2012.

O primeiro momento de Vilson no Coritiba foi marcado por uma atuação positiva. Muito positiva. Memorável até.

Primeiro ele era o vice-presidente na gestão de Jair Cirino. Era uma gestão que vinha com o objetivo de “colocar a casa em ordem”, afinal o Coritiba era um clube especialmente mal administrado havia décadas. A gestão de Jair Cirino fez coisas positivas, melhorou a gestão do Coritiba, formou alguns bons times, promoveu uma boa safra de jogadores da base que até hoje são bons profissionais em outros clubes. Mas foi marcada pela derrocada que levou o clube ao rebaixamento em 2009.

Não se pode culpar o presidente do clube pela tragédia que foi o time ser superado pela incrível campanha de recuperação do Fluminense naquele ano. O técnico era Cuca, e os deuses do futebol queriam que o tricolor das laranjeiras ficasse na primeira divisão. Coube ao Coritiba a desagradável situação de ser o clube a ser superado no último jogo, justo no ano de seu centenário. Justo com o trabalho de uma diretoria que tinha um tal de “projeto vencer”, que anunciava construir um novo estádio, etcetera e tals.

Mas se pode, sim, culpar o presidente pela invasão do campo pela torcida, arquitetada pela organizada Império Alviverde, e anunciada aos quatro ventos. Jair Cirino teve que beber o próprio veneno. Ameaçado de morte pela torcida que tinha recebido seus favores nos meses anteriores (ingressos gratuitos e tal), teve que se afastar da gestão do clube.

No momento mais difícil, Vilson assume. Vice-presidente de direito, presidente de fato, com o afastamento de Jair Cirino.

Começa então um período em que Vilson mostra o seu melhor lado. O gestor competente, capaz de administrar uma crise fatal. Capaz de colocar o clube nos eixos, mesmo completamente sem recursos.

Na segunda divisão, com menores receitas. Punição por 10 jogos, jogando metade do Campeonato Brasileiro como mandante em Joinville. Estádio para reformar. Vários jogadores com contratos vencidos, que simplesmente saíram do clube sem gerar nenhum resultado financeiro. Tinha acontecido com Keirrison, formado na base. Aconteceu com Carlinhos Paraíba e Marcelinho Paraíba, jogadores comprados a peso de ouro que foram para o São Paulo poucos dias depois do rebaixamento do clube.

Vilson capitaneou a virada.

Manteve o técnico Nei Franco, cuja honradez de ficar no clube até o fim do contrato foi o principal diferencial para o time sair da situação difícil. Trouxe o diretor de futebol Felipe Ximenes, gestor profissional para as contratações de jogadores. Afinal, Vilson era um executivo da área de finanças, entendia de gestão do dinheiro, dos contratos e do patrimônio. Mas não entendia nada de futebol, nem de vestiário. (Mais adiante veremos que quando ele começou a entrar no vestiário é que a coisa desandou de vez.)

Com esta trinca de managers o Coritiba viveu seus melhores dias em muitas décadas. Montou um time muito eficiente e sem jogadores caros, capaz de enfrentar a miséria de jogar sem estádio metade de um campeonato e ainda assim terminar na frente.

Vilson começou de imediato a imprimir as melhores marcas de sua gestão:

*campanhas de marketing do mais alto nível

*melhorias no patrimônio do clube (estádio, CT, acomodações das categorias de base, profissionalização do site e do atendimento aos sócios)

*aproximação com a torcida em outro patamar, desenvolvimento do plano de sócios

*melhores práticas na contratação de jogadores, de modo que ao longo de alguns anos o Coritiba deixou de ser um clube de jogadores de empresários e contratos curtos para ser um clube que detém parcelas significativas dos direitos de seus jogadores, com contratos de longo prazo e multas recisórias adequadas. Assim, nenhum grande jogador voltaria a sair de graça do Coritiba (ao menos até essa ainda mal explicada saída do lateral Abner – mas tem outros casos mal explicados, como a dispensa de Rafael Silva) . Inicialmente Vilson conseguiu praticar também um teto salarial condizente com a condição de clube sem dinheiro.

*escalonamento da dívida do clube e pagamento de passivos antigos (por exemplo, as dívidas com o técnico Paulo Bonamigo, que treinou o time em 2002/2003 e novamente em 2006, foram saldadas em 2012).

*melhores contratos de patrocínio (Nike, Caixa, Pró-Tork)

O resultado apareceu em campo rapidamente: Campeão da Série B em 2010; Vice-campeão da Copa do Brasil em 2011 e 2012; recorde de vitórias consecutivas em 2011 (ironia é que hoje o Real Madrid está atrás de bater este recorde); melhor mandante do Brasileirão 2011; Tetra-campeão paranaense 2010-2013.

Vilson mostrou em meio a uma das piores crises do clube que era um administrador capaz, e praticamente salvou o Coritiba da situação calamitosa que se encontrava. Despontou em toda a mídia nacional como um dirigente de novo tipo, capaz de colocar um clube nos eixos e favorecer boas práticas.

Quando tudo estava pior, Vilson demonstrou coragem, sabedoria e força para reverter. Pela primeira parte de seu trabalho merecia ser colocado na galeria como um dos maiores presidentes da história do clube. Mas alguma coisa começou a mudar em algum momento, a ponto de a gestão dele terminar muito mal, especialmente se comparada com um início tão alentador. Se no começo de 2012 alguém dissesse que Vilson seria candidato à reeleição no final de 2014 e sairia derrotado, esse visionário louco seria motivo de chacota.

O que podia dar errado, se tudo vinha tão bem?

Talvez seja mais fácil sair dos escombros e subir do que administrar o ego trazido pelas vitórias.

A primeira coisa que desandou foi o trabalho de Felipe Ximenes. Os acertos nas contratações de 2010-2011 começaram a fazer água. O excelente time de 2011 foi desmontado com as saídas de Davi (o principal meia), a excelente dupla de volantes formada por Leandro Donizeti e Leo Gago, os atacantes Marcos Aurélio e Bill (um casca grossa que incrivelmente deu certo naquele time), o zagueiro Lucas Mendes, garoto da base que se tornou um excelente lateral esquerdo sob o comando de Marcelo Oliveira, entre outros.

As reposições não foram feitas adequadamente, e o time caiu muito de rendimento. As más-línguas contam que a venda de jogadores era feita mais sob os interesses pecuniários do diretor de futebol (com as famosas comissões) do que atendendo aos interesses do clube. Também se tornaram públicas as desavenças entre o técnico Marcelo Oliveira e o diretor de futebol, por excesso de interferência em seu trabalho. Parece que chegaram às vias de fato em algum momento.

Com este tipo de dificuldades para equacionar, Vilson perdeu completamente a noção do que seria o melhor para o clube. Entre um diretor de futebol que já era muito contestado por todo mundo que entendia do clube (Ximenes) e o cara que era simplesmente o melhor técnico da história do clube, Vilson cometeu o erro imbecil de demitir o técnico e ficar com o diretor. Um caso de mero orgulho besta, afinal ele bancava sua escolha para diretor de futebol, enquanto o técnico era alguém mais independente em relação a ele, presidente do clube. O tamanho do erro ficou mais evidente pelo fato de que o Coritiba não melhorou nas temporadas seguintes, e Marcelo Oliveira acaba de ser bicampeão brasileiro com o Cruzeiro, tornando-se também o maior técnico da história do time celeste. E isso que ele está começando a carreira nas casamatas, e recebia no Coritiba um salário bem abaixo do praticado no mercado.

O primeiro grande erro de Vilson não era um erro qualquer. Ao demitir Marcelo Oliveira após uma derrota para a Portuguesa, com o time perigosamente próximo da Zona de Rebaixamento, o presidente jogou no lixo o rigor do planejamento, e a ética do cumprimento dos contratos. Mostrou que não tinha sangue-frio para suportar pressão de torcida (quem não tiver isso melhor não se candidatar a presidente de clube com torcida). Quando o time cai de rendimento, demitir o técnico é a solução preguiçosa – e completamente errada.

A coisa só não ficou tão ruim naquele momento porque o técnico chamado para substituir Marcelo Oliveira era praticamente do mesmo nível: Marquinhos Santos. E também porque justo no primeiro jogo sob o comando de Marquinhos, o Coritiba também recebeu o centro-avante Deivid, o tal camisa 9 que Marcelo Oliveira ficou pedindo por meses. (A contratação de Deivid foi feita no desespero, e jogou fora o padrão de limite salarial que o clube vinha praticando – nesse momento, o planejamento que marcou o início da gestão já tinha sido completamente abandonado)

Ou seja, o Coritiba de 2012 jogava bem (como todo e qualquer time que Marcelo Oliveira dirija com tempo suficiente para colocar seu estilo de jogo), mas não fazia gol porque não tinha alguém para colocar a redondinha na rede. A prova de que o novo técnico e novo centroavante resolviam o problema imediato foi o 3×0 que o Coritiba aplicou no Flamengo. E as seis vitórias com gol de Deivid foram suficientes para afastar o Coritiba do rebaixamento naquele ano.

O outro fator imponderável que favoreceu a situação de Vilson (ao menos aparentemente) foi que Alex decidiu voltar para seu clube do coração, fato anunciado no final de 2012. A volta do craque dependeu exclusivamente de um desejo pessoal seu, não foi obra da direção do clube. Provavelmente o bom momento construído por Vilson em 2010-2011 (como apontado acima) foi decisivo para Alex. Em entrevistas dadas à época, o craque disse que realizava um sonho antigo de terminar a carreira no clube do coração. Mas que não teria voltado para o Coritiba se a administração do clube não estivesse minimamente praticável.

O que Alex iria perceber bem rápido é que o futebol brasileiro como um todo estava podre. Muito podre. A ilusão da Copa dava uma certa sobrevida às estruturas carcomidas que a CBF sustentou precariamente, enquanto os clubes mantinham as aparências torrando adiantamentos de direitos de TV. Coisa que o próprio Vilson também fez, deslavadamente.

Quando abandonou a gestão baseada em boas práticas, Vilson mostrou que podia facilmente se transformar de gestor moderno em um “cartola” do pior tipo, e é essa imagem que ele deixa ao sair do cargo.

Pra encurtar a história, do segundo semestre de 2012 até agora, em tudo o que dependeu das ações da diretoria do clube, a coisa andou de mal a pior. Nem parecia que o presidente era o mesmo. Começaram as contratações caras e de pouco resultado, da qual o principal exemplo talvez seja o meia Lincoln (alguém pode argumentar que antes de se saber da vinda de Alex ele era uma opção consistente). Mas nesta conta entram também a substituição de Rafinha por Vítor Júnior em 2013, a vinda de Botinelli entre outros.

Que Vilson não tinha mesmo a fibra necessária para o cargo ficou evidente no dia em que o Coritiba perdeu no Couto Pereira para o Itagüi da Colômbia, praticamente selando sua eliminação na Copa Sulamericana, e iniciando um terrível descenso na tabela do nacional: de clube que liderou as primeiras rodadas de 2013 e ficou invicto por várias para clube que brigaria até o fim para não ser rebaixado. Neste dia contra o Itagüi eu estava no Couto Pereira, e vi um time totalmente sem vontade. A torcida quase derrubou o estádio novamente, e Vilson foi ao vestiário demitir imediatamente Marquinhos Santos e Felipe Ximenes.

Erro. Erro crasso.

Marquinhos tinha o grupo em seu favor, e não era culpado de nada de ruim que estava acontecendo. A torcida não pode ter o poder de demitir um técnico (com gritos de “Marquinhos #$*!¬, fora do verdão”), e um presidente tem que saber contornar isso. Na sequência, o Coritiba contratou técnicos sempre muito mais caros e muito piores que Marquinhos, terminando por trazê-lo de volta quase um ano depois.

Neste mesmo dia fatídico, Vilson deu entrevistas à imprensa chamando os jogadores de vagabundos – provavelmente tentando aplacar a banda podre da torcida. Perdeu o último fio que restava de respeito dos jogadores. Certamente eles já vinham jogando contra o presidente, como era evidente pela apatia em campo e pelas contusões inexplicáveis. Mais fácil chamá-los de vagabundos que admitir e corrigir os próprios erros (interferência no trabalho do treinador, falta de profissionalismo com os jogadores, ingressos caros que irritavam e afastavam o torcedor do clube e o tornavam indisposto para resultados ruins).

Pouco antes, o Coritiba perdeu Deivid por falta de pagamento de salários (disfarçados em “direitos de imagem” – trambicagem para driblar diretos trabalhistas e obrigações tributárias) ainda em 2013. Em 2014 os jogadores ficaram meses com salários atrasados, e pode-se dizer que o clube foi salvo pelos gols de Joel, atacante que veio para o clube sem nenhum mérito da diretoria. Ele foi oferecido praticamente de graça pelo Londrina, porque o Coritiba seria uma boa vitrine – em poucos meses se tornou artilheiro do clube na temporada e já saiu com um ótimo contrato para o Cruzeiro.

Hoje o Coritiba é um clube endividado, com as receitas futuras comprometidas, sem um time montado para começar 2015 (imagine o que será de nós sem Alex e Joel).

E tudo o que a gente pode fazer é rezar para que o novo presidente eleito tenha condições fazer um bom trabalho. As perspectivas, nada boas, são assunto para um próximo post.

A despedida de Alex no Couto Pereira

Capa do jornal Gazeta do Povo no dia após o jogo de despedida

Capa do jornal Gazeta do Povo no dia após o jogo de despedida

De agora em diante, falar em História do Coritiba vai ficar impossível sem falar em Alex. Que deixou os gramados no último domingo, dia 7 de dezembro de 2014, saindo do futebol profissional direto para a categoria do mito improvável, da lenda, das histórias fabulosas.

Eu sou novo demais para falar em maiores jogadores da História do Coritiba, minha memória pessoal remonta aos tempos das caretas de Lela e das defesas incríveis de Rafael. Lembro de ter visto o goleiro Jairo, outro na categoria das lendas vivas. E tenho lembrança etérea de Dirceu Krüger, embora acho que não de vê-lo jogando. Mesmo assim, não tenho medo de afirmar categoricamente que Alex é o maior jogador que foi formado no Coritiba em todos os tempos.

Eu sei, é temerário fazer comparações. Jogava-se futebol muito diferente em outros tempos, o Coritiba teve suas glórias e seus heróis. Mas percebam que eu não estou afirmando que Alex tenha sido o maior jogador da História do Coritiba. Acho que não foi, e ele mesmo ressalta isso sempre em suas entrevistas. Ele jogou 2 anos no Coritiba entre 1995 e 1997, e depois jogou mais 2 anos em 2013 e 2014. Nesses quatro anos atuando no clube – seus primeiros e seus últimos como profissional, conquistou um único título: o Campeonato Paranaense de 2013, o primeiro tetracampeonato do clube desde o lendário time que conquistou 8 dos 10 títulos da década de 1970 (incluindo o hexacampeonato 1971-76).

É que os times nos quais Alex jogou com a camisa alvi-verde não mereceram destaque na História do Clube pelo que fizeram. Este lugar está reservado para times como os da década de 1970, o de 1980 (que foi semifinalista do Campeonato Brasileiro sendo derrotado pelo Flamengo de Zico e tendo até hoje a maior média de público em campeonatos nacionais em seu estádio), o de 1985 (campeão brasileiro), o de 1989, o de 2003, o de 2008 (que teve Keirrison como artilheiro do Brasileirão), o de 2011 (recordista de vitórias consecutivas e vice-campeão da Copa do Brasil).

Não é disso que estou falando. Estou afirmando que Alex é o maior jogador que o Coritiba já formou, o maior craque Coxa. Porque quando brilhou pelo Palmeiras, pelo Cruzeiro, ou pelo Fenerbaçhe, ele nunca deixou de ser Coxa. Quis voltar para terminar a carreira no clube pelo qual veio ao mundo do futebol, e do qual continua torcedor agora que não joga mais como profissional.

Isso ficou evidente no jogo de despedida de Alex, quando 31 mil torcedores (praticamente sem torcida visitante) fizeram um raro momento de magia na história recente do clube, e atestaram que estávamos diante de um gigante, que deixa o futebol muito menor com sua saída.

Muito ainda terá que ser escrito para tratar do que Alex representa para o futebol e para o Coritiba. Talvez um pouco disso seja feito ainda neste blog. Este post é só uma tentativa de captar o momento que marcou o fim mítico da última passagem do grande craque pelos gramados do Couto Pereira.

Que foi um marco para o futebol o adeus a Alex, não preciso ser eu a dizer. Está no sítio da FIFA, com uma galeria de fotos e uma notícia, que inclusive ficou na capa do portal. A importância de Alex para o futebol brasileiro (que talvez viva seu pior momento em toda a história) também não sou eu que digo. É, por exemplo, o Juca Kfouri, que inclusive lamenta a ausência brutal no craque nas várias seleções nas quais ele podia ter feito a diferença. Destacando as palavras do maior jornalista do nosso futebol, ao comentar sua não convocação para a última Copa:

Mesmo porque a seleção não precisou de alguém que sumisse com a bola durante uns 10 minutos depois do segundo gol alemão…

A importância de Alex vai além do próprio futebol, e alcança a cultura brasileira, quando um craque como Fagner grava junto com Zeca Baleiro uma homenagem tão bonita como essa (que o Sportv misturou com imagens de grandes jogadas do craque, num programa que foi ao ar com reportagens após o jogo):

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Sobre a importância histórica e a magia de Alex para o torcedor Coxa, quem escreve melhor é o Rodrigo Salvador:

Alex, o Aroldo Fedato do século 21

Pra resumir, é isso: Alex formou-se no Coritiba, saiu do clube para jogar em outros grandes clubes do Brasil, foi ídolo pelos 8 anos que jogou na Turquia, foi injustiçado nas convocações da Seleção, e voltou para o clube que o formou para terminar a carreira. Não como uma pálida sombra do craque que foi em seus melhores tempos. Ainda jogando em alto nível, a ponto de ter sido o melhor jogador atuando no país nas duas temporadas (2013 e 2014).

Que ele tenha escolhido o Coritiba mesmo o clube estando numa situação péssima, e sem a menor chance de títulos. Que ele tenha ficado no clube mesmo que por meses o salário não fosse pago. Que ele desse o melhor mesmo quando os corneteiros que vão ao Couto Pereira colocassem em dúvida sua honra. Que ele continuasse jogando seu melhor futebol mesmo quando o presidente do clube dava entrevista chamando seus jogadores de “vagabundos”. Tudo isso são marcas do caráter desse homem, da grandeza que o fez maior entre os grandes jogadores brasileiros da última década.

Por fim, um pouco das impressões da grande festa que foi o jogo contra o Bahia pela última rodada do Brasileirão 2014. Antes que eu escreva qualquer coisa preciso dizer que o Rodrigo Salvador também já fez O Texto sobre este jogo:

Não aprendi a dizer adeus

Sobrou pouco para eu comentar.

A história do jogo começou muito antes. Quando Alex deixou claro e avisado que 2014 era sua última temporada. Que jogaria até o final e se aposentaria. Que o jogo final seria mágico ficou determinado pelos deuses do futebol no dia em que o Coritiba ganhou do Palmeiras e garantiu uma tranquilidade que não teve nenhum momento do ano: de ficar fora da zona de rebaixamento. Ficou ainda mais sedimentado no dia em que o Coritiba ganhou do Atlético em Minas, e deu de presente para a nação Coxa um jogo de despedida do craque sem o fantasma do rebaixamento.

Aí foi começar a preparação para o grande dia. O clube fez campanha convocando os torcedores. E eu que não tinha ido nenhuma vez ao Couto em 2014 já comecei a me coçar. Peguei minha carteirinha de Sócio Torcedor, e descobri que o futebolcard.com não é de nada. Tive que ir para a fila da bilheteria, que abria só na sexta às 10:00 horas da manhã. Fui logo depois do almoço, e esquina da Mauá com a Amâncio Moro já estava em agito:

Fila na bilheteria do Couto Pereira desde sexta

Fila na bilheteria do Couto Pereira desde sexta

No dia do jogo cheguei bem antes, com medo de não achar lugar. E descobri que já estava chegando tarde, praticamente não tinha lugar na arquibancada. Peguei um cantinho com visão privilegiada da bandeira de escanteio. Eu não sabia, mas a torcida já estava esperando antes do ônibus chegar com os jogadores. A Mauá estava assim:

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Este aí foi um vídeo feito por um torcedor. A seguir as fotos que fiz da torcida:

Festa da torcida: arquibancada e setor Pró-Tork

Festa da torcida: arquibancada e setor Pró-Tork

Festa da torcida: setor Pró-Tork e cadeiras Mauá

Festa da torcida: setor Pró-Tork e cadeiras Mauá

Festa da torcida: bandeirão na arquibancada

Festa da torcida: bandeirão na arquibancada

Festa da torcida: as crianças saúdam o craque

Festa da torcida: as crianças saúdam o craque

Começou o jogo, e o Bahia precisava ganhar (além de torcer contra Palmeiras e Vitória) para ficar na série A em 2015. E o time da boa terra aproveitou as mancadas da defesa do Coritiba. Wiliam Barbio jogou como quis, nas costas da defesa. Puxou contra-ataques em velocidade e capitaneou as duas jogadas que resultaram em 2×0 para o Bahia logo no início do jogo.

Já o Coritiba jogava bola, mas não conseguia chegar ao gol. A gente ali esperando Alex fazer os últimos milagres, como muitos que a gente viu, principalmente em 2013. Mas era só a despedida, não era mais dia de grandes feitos do camisa 10. Ele jogou com a classe conhecida, deu passes magistrais, mas gol mesmo não saiu de seus pés.

Era dia dele receber os presentes – da torcida e dos colegas. Além da festa toda, os jogadores todos vieram com o nome Alex na camisa, além de uma frase de agradecimento ao craque. E foram realmente os colegas que fizeram o grande jogo, dando o presente merecido ao craque.

Ainda no primeiro tempo, um cruzamento da direita e o gol de cabeça de Zé Love. Que pouco fez durante o ano, mas se tornou um jogador muito melhor sob o comando de Marquinhos, e merecia fazer este gol pelo tanto que buscou. Em muitas vezes ele foi o símbolo de um Coritiba que jogava bom futebol, mas não colocava a bola nas redes. Ter feito o primeiro gol era um presente dos deuses.

Depois, já no segundo tempo, foi a vez de Dudu, um dos poucos piás da base que se firmou no profissional. Coroou o que foi uma temporada impecável, consolidando-se como jogador para seguir no time principal. Quem sabe, inspirado no convívio com Alex, não se torna mais um grande jogador com essa camisa?

Aos 40 minutos, parada no jogo para a saída de Alex pela última vez. Entra Keirrison.

E ele, o K9, o maior jogador formado na base Coxa desde Alex, tentando ainda voltar a ser o atacante titular e artilheiro, fez o gol mágico da virada, o presente para o craque do dia. Não podia terminar de outra forma a festa do Coritiba, a festa da torcida, a festa de Alex.

Para fechar, assistam a ótima reportagem da RPC, com imagens do jogo:

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Ponte Preta, Cruzeiro, Grêmio e Vasco: uma no cravo, outra na ferradura

Quando a Ponte Preta veio ao Couto Pereira para enfrentar o Coritiba pela 10ª rodada do Brasileirão 2013, vinha como o melhor visitante da competição:

clube jogos pontos aproveitamento vitórias empates derrotas
Ponte Preta 3 6 66,7% 2 0 1
Flamengo 5 8 53,3% 2 2 1
Cruzeiro 4 5 41,7% 1 2 1
Corinthians 4 5 41,7% 1 2 1
Atlético-PR 5 6 40,0% 2 0 3

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Por seu lado, o Coritiba tinha acabado de perder os primeiros pontos em casa ao empatar com o Vitória, deixando de ser 100% como mandante.

Parecia, então, que o alvinegro de Campinas poderia aprontar com o Coritiba, que vinha brigando pela liderança, em terceiro lugar e a um ponto de Botafogo e Cruzeiro.

E aprontou mesmo. Logo no início do jogo Wiliam abriu o placar para a Macaca, dando os primeiros passos para chegar à posição, que hoje ostenta, de artilheiro do Marinzão. Apesar da preocupação da torcida, que eu testemunhei ali apreensivo, no último andar da Arquibancada, o Coritiba trabalhou duro por todo o primeiro tempo, e virou o placar: um gol de Robinho, aproveitando o rebote depois que Chico cabeceou na trave um escanteio cobrado por Alex, e outro de Lincoln, escorando com a cabeça o cruzamento perfeito de Vitor Ferraz, que aproveitou uma “atrasada” errada do zagueiro pontepretano.

O jogo foi pro intervalo e a gente tava lá, se gabando – “acham que vão ganhar aqui? pra cima do Coritiba é que não”, e coisa e tal.

Mas eis que voltaram dos buracos embaixo do campo os jogadores, o 9 da Ponte Preta raivoso após ter sido identificado pelo apelido de Batoré pela Tábata Viapiana em entrevista à beira do gramado para a Rádio CBN logo após o primeiro tempo. Então, a Ponte voltou e tratou de virar o jogo para 3×2 em 4 minutos de bola rolando. Um dos gols também do Wiliam-que-não-é-o-Batoré.

Aí o negócio complicou de vez. Como é que o Coritiba ia virar outra vez? Simples. Falta perto da área, daquele lugar onde Alex cobrando é caixa. A gente já começou a comemorar na arquibancada na hora que ele correu para a bola. Esse gol de empate foi fundamental, e depois foi só o Coritiba fazer mais, para fechar o placar de 5×3 e mostrar quem é que manda no Couto. Mais um de Lincoln e outro de Robinho.

Lincoln foi saudado como craque, como herói, como o nome do jogo. Ganhou um monte de pontos no Bola de Prata da Placar e no Footstats, e a cobrança pra cima de Marquinhos veio forte: “como pode deixar no banco um cara com esta qualidade?”. Bem, eu pensava com meus botões – Marquinhos conhece o material que tem à disposição, e o Lincoln não fica titular porque não engrena uma sequência de bons jogos. Tem também aquela coisa de que um meio de campo com dois veteranos de toque de bola que não marcam e não correm muito torna o time mais vulnerável. Aliás, na metade final do segundo tempo veio a preocupação geral: Alex saiu contundido, e ficaria de fora do jogo contra o Cruzeiro.

A quarta-feira tinha sido uma noite épica, e o jogo de sábado no Mineirão poderia definir o Coritiba como líder, bastando o Botafogo não ganhar do Vasco no domingo.

Mas não era assim que as coisas estavam escritas. O Cruzeiro tem um dos melhores treinadores em atividade no Brasil, como bem sabemos todos nós Coxas, que pudemos recuperar um pouco da autoestima em 2011 e 2012 graças ao Marcelo Oliveira, que colocou o Coritiba como nunca entre os times que disputam os campeonatos de maneira competitiva. Além do técnico, o Cruzeiro também levou nosso melhor meia de 2012: Éverton Ribeiro, comprado por 1/4 do valor que o Cruzeiro recebeu por Montillo, mas jogando mais futebol que a mais cara contratação da história do Santos. Aliás, o Ribery dos trópicos vem merecendo destaque nas avaliações da Placar, e foi mesmo decisivo naquele jogo em que o Coritiba acabou perdendo sua invencibilidade.

Avaliação dos melhores meias do Brasileirão em 12 rodas, pela Placar

Avaliação dos melhores meias do Brasileirão em 12 rodas, pela Placar

Aliás, mais decisivos que o Éverton Ribeiro foram os laterais do Cruzeiro, que são hoje os melhores em atividade no Brasil. Maike pela direita, que fez a jogada do gol, e Egídio pela esquerda, sempre incomodando muito a defesa alviverde. O Coritiba sem Alex perdeu a primeira, e Lincoln foi apagado, mostrando que devem ter mais calma os comentaristas que ficam querendo exigir sua presença. Ele continua sendo um jogador caro, mas que não joga bem sempre – principalmente, não assume a responsabilidade de ser o cérebro do time.

Não que o Coritiba tenha jogado mal em Minas, mas foi muito bem anulado pelo Cruzeiro, que tem um elenco tão bom que tinha jogadores como Borges e Tinga no banco, ou Diego Souza fora por contusão. Terminou a rodada na vice liderança, com o melhor ataque da competição e o melhor saldo de gols.

clube jogos pontos aproveitamento vitórias empates derrotas gols marcados gols sofridos saldo
Botafogo 11 23 69,7% 7 2 2 18 10 8
Cruzeiro 11 21 63,6% 6 3 2 23 9 14
Coritiba 11 20 60,6% 5 5 1 17 12 5
Bahia 11 19 57,6% 5 4 2 13 10 3
Vitória 11 18 54,5% 5 3 3 16 12 4

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O Coritiba tinha que lamber rápido as feridas para ir a Porto Alegre enfrentar o Grêmio, pois era inevitável que um dia caísse sua invencibilidade. Mantida por 10 rodadas do Brasileirão, aquilo já era um recorde histórico para o clube (ou não?). Fizeram muita falta Alex e Deivid, os dois principais goleadores do time. Bill e Keirrison, que vieram ganhando espaço com a contusão do nosso camisa 9, contundiram-se em Belo Horizonte, sem conseguirem ser muito efetivos. Apesar de Keirrison ter acertado uma bola trave, e começar a mostrar que pode voltar a ser um bom jogador, embora seja difícil repetir sua façanha de 2008, quando marcou 41 gols pelo Coritiba na temporada, e foi o primeiro jogador a ser artilheiro do Brasileirão pelo clube (embora dividindo o título com Washington).

Se na 11ª rodada o Coritiba tinha sofrido sua primeira derrota, na 12ª conseguiria sua primeira vitória como visitante. Com a volta de Deivid, que marcou logo no início, aproveitando o ótimo cruzamento de Vitor Ferraz. Daí em diante, o Coritiba só se segurou atrás, e deixou a própria incompetência do Grêmio dar conta do recado. A mesma fórmula que o Vasco usaria no Couto Pereira na 13ª rodada para impingir a primeira derrota ao Coritiba em sua casa neste Brasileirão.

O jogo em Porto Alegre foi uma demonstração de competência tática do Coritiba, conseguindo vencer fora sem Alex. Marquinhos Santos armou um ótimo 3-5-2, pela primeira vez neste Brasileirão, uma coisa que se mostrou muito boa para quem tinha Emerson como zagueiro reserva. Além disso, o meio campo tinha só Wiliam como volante, e Robinho podia criar e subir em velocidade, bem como voltar para marcar. Lincoln novamente não jogou bem, nem Geraldo, que também voltou do Departamento Médico junto com Deivid.

Mas o mesmo 3-5-2 não foi uma boa escolha para o Coritiba enfrentar o Vasco em casa. O esquema foi bom para uma retranca com saída rápida pelos lados contra um time aparvalhado. Mas em casa nem garantiu a segurança defensiva nem permitiu qualidade de armação de jogada ou velocidade de transição para o ataque. Na verdade, o jogo mostrou que talvez Robinho (fora pelo terceiro cartão) seja mais essencial no time que o próprio Alex. É só lembrar que o jogador é o que mais dá assistências, além de fazer gols. Passa bem e com velocidade, e é o único que além de marcar se projeta para receber na frente. Um gigante.

Espantosamente, a Bola de Prata da Placar o coloca em 32º entre os meias, mas o footstats o coloca como 13º entre todos os jogadores do campeonato, mesmo ele perdendo 5 posições por ter ficado a ultima rodada de fora.

Estatísticas de Robinho no footstats após 13 rodadas

Estatísticas de Robinho no footstats após 13 rodadas

A única coisa que dá pra entender esse 3-5-2 em casa é a falta do Robinho, o que levou a tentar um esquema em que se pudesse sair pelos lados. Os três veteranos que deveriam decidir em momentos difíceis não estiveram bem: Alex nem voltou para o segundo tempo, ainda sentindo o tornozelo, e Deivid e Lincoln foram apagados. Alex perdeu um gol na cara do goleiro, mas fez muita falta quando no segundo tempo não estava em campo para bater uma falta da entrada da área, que Lincoln apenas jogou contra a barreira.

Eu estava com meus filhos no estádio, curtindo o dia dos pais. Passei mal durante o jogo e precisei usar pela primeira vez os banheiros do Couto Pereira. São poucos banheiros para muita torcida, não há papel higiênico e faltou água na caixa para dar conta de tanto uso. Minhas crianças, que foram pela primeira vez ao estádio também sentiram o peso de ser torcedor no Brasil: o Heitor disse que o Estádio é muito desconfortável (a arquibancada de cimento descoberta é dura e gelada), e a Mariana achou menos emocionante do que esperava. Emocionada mesmo ela ficou foi de raiva de todos os palavrões que ouviu da horrível torcida, que infelizmente vai mais para xingar e reclamar o que para curtir o jogo ou apoiar o time. Um dia a gente aprende a fazer esse negócio de futebol no Brasil.

Então é isso. O Coritiba não se afastou muito dos líderes, porque Botafogo e Cruzeiro também não venceram seus jogos em casa. Mas logo abaixo tem gente que vem subindo de produção e ganhando consistência.

É preocupante quando se percebe que o time é apenas o 9º colocado quando se computam apenas as últimas 5 rodadas. Corinthians e Atlético PR vem embalados e buscam posições no G4.

clube jogos pontos aproveitamento vitórias empates derrotas gols marcados gols sofridos saldo
Atlético-PR 5 13 86,7% 4 1 0 10 6 4
Corinthians 5 11 73,3% 3 2 0 7 1 6
Cruzeiro 5 10 66,7% 3 1 1 7 3 4
Bahia 5 10 66,7% 3 1 1 8 6 2
Botafogo 5 9 60,0% 2 3 0 9 6 3
Vasco 5 8 53,3% 2 2 1 8 7 1
Ponte Preta 5 8 53,3% 2 2 1 9 9 0
Grêmio 5 7 46,7% 2 1 2 6 4 2
Coritiba 5 7 46,7% 2 1 2 7 6 1

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O Coritiba se aproveitou enquanto os outros times estavam desorganizados. Agora tem que se reinventar para continuar disputando na frente, uma vez que o fator surpresa já se esgotou, e Alex pode não decidir sempre os jogos. O campeonato promete.

 

 

 

 

Tuitando Santos 2×2 Coritiba e o vídeo dos melhores momentos

Ontem tentei acompanhar o jogo só pela internet, já que não estou em Curitiba. Não consegui ouvir nem a 98 nem a CBN pela internet. Então tive que ficar acompanhando pelo “Tempo Real” do Globoesporte.com, ouvindo a CBN São Paulo e ligado no twitter com a busca Coritiba.

Segundo vários comentários foi o melhor jogo do Brasileirão até agora, e todo mundo que estava vendo o jogo estava comentando muito o desempenho do Alex. Para registrar o momento do jogo, coloco abaixo os meus tuítes e os que retuitei durante a partida.

E finalmente, o vídeo com os melhores momentos do jogo:

Pereira, o xerifão da zaga Coxa (2008-2013)

Pereira do Coritiba

Quando foi chamado para vir jogar no Coritiba, Pereira tinha acabado de passar o ano como zagueiro titular no time do Grêmio que foi vice-campeão brasileiro de 2008, com a defesa menos vazada da competição. A notícia da chegada do xerifão, então com 29 anos, foi feita na Gazeta do Povo de 27/12/2008 (link para a notícia). Pereira chegava num momento muito difícil do Coritiba, pois o clube tinha passado recentemente por 2 anos na segundona (2006 e 2007), vivia severas dificuldades financeiras e, apesar de ter tido uma ótima temporada em 2008, terminava o ano sem conseguir um bom treinador e com sérios problemas para renovar contratos de 18 jogadores que tiveram seus vínculos encerrados – vários deles titulares. Ninguém sabia disso ainda, mas o ano do centenário seria trágico, com rebaixamento e tudo. Cenário tenebroso, mas em meio às dificuldades é que se formam os grandes heróis.

Mesmo vindo de uma boa posição num dos melhores times de 2008, Pereira não assumiu naturalmente a posição de titular em 2009. O primeiro jogo do Paranaense foi um 0x0 com o Iraty em 25/01/2009. Naquele jogo, a zaga titular do Coritiba entrou com Cleiton (recém trazido do Toledo) e Felipe. A matéria da Gazeta sobre o jogo está aqui, e a galeria de fotos no sítio do Coritiba está aqui.

Isso porque o zagueirão se machucou logo no início dos treinamentos, e sua estréia só aconteceu pela 6ª rodada do estadual, em 15/02/2009, contra o Rio Branco. Neste jogo, o Coritiba voltou a marcar gols no Couto Pereira pela primeira vez desde novembro do ano anterior (veja matéria sobre o jejum na Gazeta do dia). Segundo a crônica do jornal, Pereira estreou bem, e teve participação no primeiro gol, quando o zagueiro que o marcava desviou para dentro a bola em uma cobrança de falta do meia Renatinho. O outro gol do Coxa foi do zagueiro Cleiton.

Pereira em seu primeiro jogo pelo Coritiba (foto do sítio oficial)

Pereira em seu primeiro jogo pelo Coritiba (foto do sítio oficial)

Este campeonato estadual seria o único dos 5 que o zagueirão disputaria pelo Coritiba sem ser campeão. E começou sendo decisivo no primeiro gol do clube em seu estádio na temporada, talvez prenunciando a sina de zagueiro artilheiro. Até deixar o clube neste início de julho de de 2013, Pereira iria marcar 23 gols com a camisa do Coritiba, atingindo a marca inconteste de zagueiro com mais gols anotados pelo Coritiba. Esta posição de “zagueiro artilheiro” vem sendo revezada entre Pereira e Emerson nos anos recentes, e é provável que seu melhor companheiro de zaga ainda o supere na marca, pois está apenas 2 gols atrás. Entretanto, ao sair do Coritiba, Pereira leva esta marca: é o zagueiro que fez mais gols pelo alvi verde.

Pode-se dizer que a política do Coritiba ao dispensar jogadores é necessária para manter as finanças em dia: não há como sustentar salário de tantos jogadores, e por causa disso o clube já dispensou um de seus maiores talentos da base, sem nenhuma despedida, como já anotado aqui no blog. Um jogador como Pereira mereceria placa no estádio, festa de despedida, livro em homenagem e qualquer outra coisa que se pudesse imaginar. Entretanto, a diretoria se limitou a dois textos no sítio oficial, que esse blog vem reforçar em respeito à história deste nosso craque.

Zagueiro artilheiro deixa nome na história

O texto acima foi publicado em 27 de junho no sítio oficial do Coritiba, e traz algumas fotos e a lembrança de todos os gols marcados por Pereira com a camisa do clube.

Com trajetória vitoriosa, Pereira se despede do Coxa

Outro texto publicado no mesmo dia, com algumas lembranças do período do zagueirão no clube, a informação sobre uma pequena homenagem do clube (uma camisa do Coritiba com o nome “Capitão Pereira” e o nº 23, total de gols marcados pelo jogador) e um vídeo em que o jogador faz uma despedida.

Analisando um pouco melhor os 23 gols do grande zagueiro:

3 gols no Brasileirão 2009

2 gols no Paranaense 2010

1 gol pela Copa do Brasil 2010

1 gol em amistoso contra o Vasco (durante a parada para a Copa do Mundo)

4 gols pela Série B 2010

4 gols pelo Paranaense 2011

1 gol pelo Brasileirão 2011 (na décima rodada, 2º gol do 3×1 sobre o Fluminense  – ficha do jogo, com vídeo, aqui na futpedia)

1 gol pelo Paranaense 2012 (o primeiro gol do 2×1 sobre o Corinthians Paranaense pela 2ª rodada do 2º turno – tem crônica deste jogo aqui no blog)

4 gols pelo Brasileirão 2012

2 gols pelo Paranaense 2013

Além dessa marca como goleador, Pereira participou de algumas façanhas épicas e marcas históricas pelo Coritiba.

* Foi um dos únicos jogadores que participou de todas as conquistas que perfizeram o tetracampeonato estadual 2010-2013. Veja o vídeo promocional feito pelo clube:

* Participou da histórica campanha de 24 vitórias consecutivas entre 3 de fevereiro e 5 de maio de 2011. Veja o histórico da campanha neste link.

* Participou da grande campanha no Brasileirão 2011, quando o Coritiba foi o melhor mandante da temporada, com 75% de aproveitamento, 40 gols marcados e 27 de saldo (veja a tabela)

* Participou dos dois vice campeonatos da Copa do Brasil em 2011 e 2012

Além disso, nas campanhas mencionadas, Pereira foi peça chave para que o Coritiba tivesse poucas derrotas e sofresse poucos gols.

Campeonato Paranaense 2010: 1 derrota e 14 gols sofridos em 20 jogos

Campeonato Paranaense 2011: invicto e 17 gols sofridos em 22 jogos

Campeonato Paranaense 2012: 1 derrota e 21 gols sofridos em 24 jogos

Campeonato Paranaense 2013: 2 derrotas e 20 gols sofridos em 24 jogos

Campeonato Brasileiro 2011: apenas 2 derrotas como mandante, e 13 gols sofridos em 19 jogos

Copa do Brasil 2011: 2 derrotas e 7 gols sofridos em 12 jogos

Copa do Brasil 2012: 3 derrotas e 7 gols sofridos em 12 jogos

Pouquíssimos jogadores podem se dar ao luxo de ostentar tantas marcas importantes em suas passagens pelo glorioso, e a próxima vez que alguém quiser escrever um livro como esse, vai precisar dedicar um capítulo ao Pereira.

Ele acabou de ir embora, mas já deixa muita saudade no Coritiba. Todos os depoimentos que vi sobre nosso craque dão conta de que ele foi um grande líder nos vestiários, um ótimo profissional, e um grande colega e amigo dos que trabalharam com ele. Seu nome ficou para sempre marcado no Coritiba.

 

Rafael Silva, uma das principais promessas da base, deixa o Coritiba

Notícia no jornal Metro

Notícia no jornal Metro

Deu no jornal Metro de hoje, página 17.

Este blog lamenta muito essa informação, e também a falta de notícias no sítio do Coritiba e nos blogs que cobrem o verdão. Eu vi a notícia no Metro, e saíram apenas comentários bem sucintos no Coxanautas (aqui e aqui) e no Globo Esporte.

Eu vi o Rafael jogando algumas vezes, em todas achei ele muito bom. Sempre efetivo, partindo para cima dos adversários, mostrando boa velocidade, bom drible e bom passe. Junto com Tiago Primão, Zé Rafael e outros grandes jogadores que vem sendo formados na base nos últimos tempos, Rafael Silva teria um grande futuro no Coritiba.

Na minha opinião, tem muito mais qualidade para jogar do que Arthur, Julio Cesar, Anderson Aquino ou Geraldo.

Perder um jogador deste nível é um erro crasso, e o Coritiba vem cometendo vários assim. A gente sempre desconfia de qual a motivação da diretoria em contratar jogadores de outros clubes, a maioria sem grandes qualidades, e desperdiçar os maiores talentos formados na base.

E o pior é que ele sai assim, liberado de contrato. Ainda se você vendido num grande negócio dava para entender.

De qualquer forma, como dizem as notícias que eu linkei aí em cima, se o Coritiba não pretende escalar o jogador nunca, como vem fazendo, melhor mesmo liberá-lo para seguir adiante na vida profissional.

Se vai para um clube suíço da segunda divisão, como aventa o Globo Esporte, acredito que ele vá ascender no futebol europeu, e o Coritiba provavelmente vai receber alguma comissão como clube formador.

Se o Rafael Silva ficasse, ganhasse oportunidades e crescesse normalmente dentro do clube, ele seria logo um jogador do nível do Rafinha. Aliás, com características semelhantes. Um atacante rápido, bom driblador, muito efetivo, capaz de marcar gols ocasionalmente, mas principalmente uma ótima opção para jogar pelos lados do campo e servir os companheiros, além de azucrinar as defesas adversárias.

Para mim, é motivo de muita tristeza.

A seguir, os jogos em que o garoto atuou e foi motivo de comentário neste blog:

O primeiro jogo em que Rafael Silva entrou como profissional foi no 2×1 contra o Rio Branco, pela 7ª rodada do Paranaense 2012.

Comentário da atuação do garoto aqui no blog:

Jonas também saiu no segundo tempo, e Gil foi para a lateral, com a entrada de Rafael Silva no meio campo.  Na prática, a troca de um volante por um meia, que deu bom resultado. O piá, que já mostrou ótimo futebol na Copa São Paulo, estreou em jogo pelo profissional e não decepcionou. Fez mais do que praticamente todos do time tinham feito o jogo inteiro, partindo sempre em direção ao gol e realizando jogadas de perigo. Em uma delas, partiu para dentro da área e bateu cruzado, mas o goleiro desviou e a bola rebateu na trave.

No seu terceiro jogo como profissional, aqui no blog eu já cantava o garoto como o principal jovem talento que o Coritiba tinha. Pode parecer exagero os comentários que fiz à época, mas ele realmente arrebentou no 4×1 contra o Paysandu, pelas oitavas de final da Copa do Brasil 2012.

Esse garoto aí está em seu primeiro ano como profissional, ainda não jogou uma partida inteira e entrou só duas ou três vezes em campo. Entretanto já pode ser considerado o melhor jogador que o Coritiba tem em seu elenco. Rafael Silva pegou duas vezes na bola, nas duas foi muito efetivo e rápido em direção ao gol – e só podia ser parado com pênalti. Na primeira vez, anotado pelo árbitro, cobrado por Roberto e defendido pelo goleiro do Paysandu após catimba que lhe valeu cartão amarelo. Na segunda vez, a da foto acima, o goleiro tomou novamente o cartão, dessa vez tendo que ir para o chuveiro. Resultou no 4º gol do Coritiba apó cobrança do veterano Tcheco.

E o melhor de tudo: Rafael Silva é um craque de alta estirpe, e o Coritiba não precisa dele no momento. Quero dizer: há tempo para ele amadurecer, sem que se exija que salve o time em momentos difíceis. O negócio é esse mesmo – ele continuar entrando no segundo tempo, aprontando pra cima das defesas. Marcando um golzinho aqui, outro ali. 2012 Ainda não é o ano para ele entrar como titular. Ele tem tempo para isso, e o Coritiba não precisa apressar as coisas. Afinal, o neymar alvi-verde acabou de completar 20 anos de idade.

Outro jogo em que Rafael Silva foi bem, foi o primeiro em que ele começou jogando, na última rodada do primeiro turno do Paranaense 2012. Neste jogo ele fez o primeiro gol alvi-verde.

Foi 3×1 contra o Roma, e o post neste blog está aqui.

O mais triste é que quando Marcelo Oliveira era o técnico, Rafael Silva veio ganhando boas oportunidades de jogar. Já com a chegada de Marquinhos Santos, justamente o treinador que conhecia a base Coxa melhor do que ninguém, nossa principal revelação da base perdeu o espaço que vinha ganhando, a ponto de ser despedido de forma trágica.

Começo a dar razão ao que li no blog Prata da Casa, dedicado a acompanhar a trajetória de garotos da base nos profissionais dos clubes que os revelam:

Com ambição nacional, Coritiba limita “cota da base” a treinador

A médio prazo, esta política está muito errada, pois com o tamanho e as receitas que têm, o Coritiba não pode ser dar ao luxo de não ser perfeito no aproveitamento dos bons talentos de sua base.

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